Clarice Lispector provoca paixão e reflexão


O diretor de teatro e cinema Matheus Barbassa é um apaixonado por Clarice Lispector e faz questão de transmitir esse amor pela escritora a outras pessoas.

No início do ano, ele e a professora Lucilia Abrahão, da USP/RP, deram um curso no Sesc Ribeirão para discutir o livro “Uma aprendizagem ou o livro dos Prazeres”. O evento foi um sucesso.

Nesta quarta-feira, ás 20h30, ele volta com a direção de leitura do texto "Amor", um conto da escritora. Depois tem bate papo com Lucilia Abrahão. O evento acontece no auditório do Sesc, rua Tibiriçá, 50, em Ribeirão Preto.

Para falar sobre a sua paixão por Clarice, Matheus Barbassa deu uma entrevista ao Blog Livro sem frescura.
Livro sem frescura - Quando você começou a ler Clarice Lispector e o que levou você até a obra dela?
Matheus Barbassa – Li Clarice como qualquer outro adolescente na época de escola. Foi “A Hora da Estrela” e lembro-me de não ter gostado daquilo. Anos se passaram e fui convidado para o projeto “Leitura Dramática” do Sesc. O livro era “A Hora da Estrela”. Li o livro de novo. E um mundo novo se abriu pra mim. Fiquei tão absorvido pela literatura daquela mulher, que li nove livros dela em menos de um mês. Era um vício. Eu precisava mergulhar mais e mais naquele universo tão particular. Clarice revelou-me.



Livro sem frescura - Como a Clarice toca você?

Matheus Barbassa – Não dá para explicar com palavras. É uma sensação de desvelamento. É algo que só acontece quando leio Clarice. É como se ela se sentasse ao meu lado, e ficasse o tempo todo comigo. É fora do normal. É único.

Livro sem frescura - O seu amor pela obra dela é tão grande que faz você querer passar esta paixão para outras pessoas através de leituras e estudos?

Matheus Barbassa - Sim. Sou completamente apaixonado pela obra de Clarice. E é tão incrível que a cada novo projeto eu descubro uma faceta nova. Algo que ainda não tinha notado. E dividir isso com outras pessoas é realmente enriquecedor. Cada novo olhar para a obra dela faz com que eu sinta que estou realizando uma missão mesmo.

Livro sem frescura - Qual a frase de Clarice ou obra dela que acompanha você no dia a dia?

Matheus Barbassa -  “Liberdade é pouco. O que desejo ainda não tem nome.” Essa frase aparentemente simples é muito significativa para mim. Deixa explícito esse sentimento de incompletude que é ser humano. Mas o vazio é também busca. É ação. E a obra é “Uma Aprendizagem ou O Livro dos Prazeres”. Sou completamente apaixonado por esse livro. É meu livro predileto no mundo todo. Tem um filme chamado “Fahrenheit 451” do Truffaut baseado no romance distópico de Ray Bradbury em que os livros são proibidos e queimados e alguns refugiados memorizam seus livros prediletos para passar uns para outros, para não deixar morrer as grandes obras. “Uma Aprendizagem ou o Livro dos Prazeres” seria o meu livro.



Livro sem frescura - No Sesc você vai dirigir a leitura do Conto “Amor”. O que o público pode esperar da leitura?
Matheus Barbassa -  “Amor” é um conto muito poderoso de Clarice. É tão simples. Assustadoramente simples. E isso é o mais difícil na hora de adaptá-lo e dirigi-lo. A questão que sempre fica pra mim é: Como não trair a obra e ao mesmo tempo trazer um olhar pessoal sobre aquilo tudo? Então, o que o público pode esperar é isso: Respeito e muita paixão pela obra. E também um olhar pessoal sobre aquele universo. Eu me identifico com Ana, a protagonista do conto. Identifico-me com seu assombro diante de um mundo que até então ela desconhecia. E o conceito de amor de Clarice é muito sofisticado, complexo. Não é banal, nem novelesco. É contraditório. Uma mistura de espanto, nojo e urgência.

Livro sem frescura - Quais os próximos eventos que você está preparando com a mesma temática?

Matheus Barbassa - Esse mês de outubro também começo um projeto chamado “Conversas sobre feminismo’s: Gênero, literatura e audiovisual”. Nesse projeto, estamos eu e mais duas mulheres, e cada uma vai falar um pouco sobre seus estudos e vivências. Serão 6 encontros com a duração de três horas cada e divididos por temas: contextualização histórica e política do feminismo e suas pautas; feminismo a partir do olhar e perspectiva das mulheres negras e identidade de gênero/Teoria Queer.



Livro sem frescura – Quais ferramentas serão usadas no projeto?

Matheus Barbassa: Serão usados diferentes ferramentas de abordagem para os temas, tais como exibição de vídeos (cenas de filmes, palestras, clipes e campanhas publicitárias), leituras de textos e dinâmicas de grupo. Dias 18, 19, 20, 25, 26, 27 de outubro (TERÇA, QUARTA, QUINTA) 19h às 22h. Inscrições pelo e-mail matricula@ribeirao.sescsp.org.br ou na Central de Atendimento (na mensagem deverá constar nome completo, RG, telefone e o título da atividade). Espero que seja uma possibilidade boa de troca. Afinal, a pergunta que mais me faço ultimamente é COMO VAMOS CONVIVER TODOS JUNTOS? Esse projeto é uma tentativa de resposta.

Publicado originalmente no Blog Livro sem frescura (jornal A Cidade)